Eplepsia

DÚVIDAS FREQUENTES



 

EPILEPSIAS

Distúrbios neurológicos crônicos mais antigos de que se tem registro, por muito tempo as epilepsias foram marginalizadas e vistas sob a ótica das doenças psiquiátricas. Na Idade Média, as crises epilépticas eram encaradas como possessão demoníaca, criando-se um estigma que, em certa medida, ainda persiste, especialmente pela desinformação da população. A começar pela crença de que existe apenas um tipo de epilepsia, a que gera crises convulsivas. Na verdade, trata-se de um grupo de transtornos neurológicos desencadeados por distúrbio elétrico cerebral, que dispara impulsos nervosos com alto grau  de sincronização. São diferentes tipos de epilepsias, que se distinguem pelas manifestações clínicas, que podem afetar as áreas motora, visual, sensitiva e psíquica, entre outras.

Com uma prevalência de 2% na população em geral, as epilepsias podem levar a repercussões sociais que dificultam as relações pessoais e profissionais. Por isso, a implementação de núcleos especializados de atendimento é fundamental para diagnósticos e tratamentos corretos, que elevem a qualidade de vida dos portadores. Em Belo Horizonte, o Núcleo Avançado de Tratamento das Epilepsias (Nate) do Hospital Felício Rocho, foi pioneiro em Minas Gerais para o tratamento multidisciplinar da epilepsia. Hoje, a capital conta também com núcleos na Santa Casa e no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) – já no Nate o atendimento é particular ou por meio de convênios.

Fazem parte do grupo neurologistas, neurocirurgiões, neurofisiologistas, neuropsicólogos, psiquiatra e pessoal técnico especializado, preparados para atender crianças, adolescentes e adultos com crises epilépticas. A unidade realiza avaliação pré-cirúrgica e cirurgia de epilepsia, diagnóstico de crises não-epilépticas e classificação adequada do tipo de crise epiléptica.

O neurocirurgião José Maurício Siqueira, coordenador do Nate, explica que é possível se deparar tanto com pacientes que manifestam os sintomas de um tipo de epilepsia logo ao nascer quanto com aqueles já idosos, que nunca tiveram um crise na vida anteriormente. “Esse é o perfil mais frequente, nos extremos da vida: na infância e na velhice. Uma situação relativamente comum na infância  é o aparecimento  de crises convulsivas febris até os 5 anos de idade e depois as crises desaparecem, podendo  voltar na adolescência.”

Os passos necessários para um diagnóstico correto e de qual tipo de epilepsia o paciente tem depende de uma avaliação neurológica detalhada através de uma consulta bem feita  acompanhada de exames complementares, como o eletroencefalograma (EEG), que registra a atividade elétrica do cérebro, e a ressonância magnética, que vai mostrar se o cérebro tem todas as estruturas em ordem.

De acordo com o neurocirurgião, com o avanço da ciência, 80% dos portadores controlam bem as crises com remédios. “O tratamento convencional das epilepsias é fundamentalmente medicamentoso. Existem vários anticonvulsivantes orais disponíveis atualmente no mercado. Os chamados de primeira linha: – fenobarbital, fenitoína, carbamazepina e ácido valpróico – são disponibilizados pelo SUS e controlam até 75% das crises. Os de geração mais recente e de alto custo – oxcarbazepina, lamotrigina e topiramato – controlam os outros 5 %  das crises, mas para ter acesso é preciso comprá-los ou entrar com um pedido judicial.”

Se a escolha do medicamento não for adequada, além de não se conseguir o controle das crises, as epilepsias podem ser agravadas. Quando não é possível definir o tipo de epilepsia apenas com a consulta e com o eletroencefalograma convencional, principalmente se as crises continuarem, é indicado o exame de Vídeo-EEG ( Vídeo-Eletroencefalografia ) . Este exame  faz a filmagem das crises e o registro  da atividade elétrica cerebral concomitante podendo ser bastante útil no diagnóstico diferencial de qual tipo de epilepsia ou de quadros não epilépticos.

Os outros 20% dos casos se mostram refratários, ou seja, as pessoas continuam a ter crises apesar da troca ou associação de diversos medicamentos. Estima-se que metade desses pacientes refratários possam se beneficiar do tratamento cirúrgico das epilepsias. Essa modalidade terapêutica é obrigatoriamente precedida por uma avaliação cuidadosa, que deve incluir sempre avaliação clínica, ressonância nuclear magnética do encéfalo, vídeo-EEG prolongado e avaliação neuropsicológica. No Nate, os casos de cada paciente são discutidos por toda a equipe, em reuniões semanais.

Siqueira explica que a cirurgia é indicada para aqueles pacientes refratários que apresentem um foco específico no cérebro que pode ser retirado em uma operação, o que controla de 80% a 90% das crises. “Sem esse foco, a cirurgia não é possível, assim como quando os focos forem múltiplos. Nesse caso, o indicado é a implantação de um marcapasso cerebral, chamado de estimulador do nervo vago, que manda estímulos elétricos para o cérebro, impedindo a crise.”

Parte significativa dos pacientes, em torno de 30%,  que se mostram refratários ao tratamento medicamentoso apresentam na verdade crises não-epilépticas, de causas variadas. Estas crises podem ser de origem cardiológica como nas arritmias cardíacas, nos distúrbios do sono e dos movimentos, ou associadas a fatores psicogênicos. O diagnóstico adequado é fundamental para que se indique o tratamento correto, já que nestes casos nem sempre são necessários os medicamentos anti-epilépticos.

 

PERSONAGEM DA NOTÍCIA

 

Denise de Miranda Almeida, de 53 anos

Passou por uma cirurgia para tratamento de epilepsia

 

A publicitária foi diagnosticada aos 3 anos, quando uma febre muito alta causada pelo sarampo desencadeou crises convulsivas. “A febre não baixava e tive que ser hospitalizada. Saí da internação já tomando medicamentos para tentar controlar as crises.” Porém, ela não teve a resposta esperada e passou quase cinco décadas com uma média de cinco crises diárias, de tipos diferentes. “Na crise convulsiva, começava como um mal estar, tipo enjoo, e logo a nuca pesava. Era muito rápido, mas já sabia que eu iria cair e ter contrações musculares. Já me machuquei muito nessas quedas, como costelas quebradas e cortes na cabeça.”

Ela descobriu o Nate ao assistir a uma entrevista do neurocirurgião José Maurício Siqueira em um programa de tv e passou por todas as etapas do acompanhamento, até que a equipe decidisse pela cirurgia. “Aceitei na hora. Sempre tive que trabalhar por conta própria porque ou revelava logo que tinha epilepsia e não era contratada ou não falava e, quando tinha uma crise, era mandada embora. Precisava de ter qualidade de vida”. Depois da cirurgia, Denise não teve mais crises e continua tomando os medicamentos. Ela agora se dedica a esclarecer o máximo de pessoas sobre as epilepsias, inclusive por meio do site www.epilepsiasempreconceito.com.br.

 

O QUE É?

 

As epilepsias são um distúrbio nas atividades elétricas do cérebro que se expressa por crises repetidas, convulsivas ou não, com diferentes manifestações clínicas.

 

O QUE CAUSA?

 

Podem ter uma origem congênita (predisposição genética) ou serem adquiridas por uma lesão no cérebro decorrente de forte pancada na cabeça; traumatismo a partir de dificuldades no parto ou durante a gestação; infecções, como a meningoencefalite; febres muito altas que levam a crise convulsiva; abuso de bebidas alcoólicas e drogas; doenças degenerativas do sistema nervoso ou vasculares; e tumores cerebrais.

 

COMO PODEM SER AS CRISES EPILÉPTICAS?

 

As crises epilépticas podem se manifestar de diferentes maneiras. As principais são:

 

- Crise convulsiva: é a forma mais conhecida pelas pessoas e é identificada como "ataque epiléptico". Nesse tipo de crise, a pessoa pode cair ao chão, apresentar contrações musculares em todo o corpo, mordedura da língua, salivação intensa, respiração ofegante e, às vezes, até urinar.

- Crise do tipo ausência: é conhecida como "desligamento". Geralmente a criança fica com o olhar fixo e perde contato com o meio por alguns segundos. Por ser de curta duração, muitas vezes não é percebida pelos familiares ou outras pessoas próximas.

- Crise parcial simples: o paciente experimenta sensações estranhas, como distorção de percepção ou movimentos descontrolados de uma parte do corpo.

- Crise parcial complexa: a pessoa aparenta estar alerta mas há perda de contato com o ambiente,  não tendo controle de seus atos. Pode apresentar movimentos automáticos involuntários como ficar mastigando ou fazendo caretas, falando de modo incompreensível ou andando sem direção definida. Em geral, a pessoa não se recorda do que aconteceu quando a crise termina.

 

O QUE FAZER PARA AJUDAR ALGUÉM EM CRISE

 

- Projeta a cabeça da pessoa para que ela não se machuque

- Vire-a de lado para que ela possa respirar e não se engasgue com a saliva

- Não tenha medo da saliva pois não há risco de contágio. É saliva normal. Até hoje existe um conceito extremamente errôneo de achar que se pega epilepsia com a saliva

- Se não houver ferimentos causados por queda, por exemplo, apenas espere a crise passar. Caso contrário, é recomendado encaminhá-la a uma unidade básica de saúde ou acionar o SAMU.

 

Fontes: Associação Brasileira de Epilepsia (ABE) e o neurocirurgião José Maurício Siqueira

 

 

Carolina Lenoir

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